Se alguns fotógrafos gostam que o objeto de suas lentes fique quieto de forma a facilitar o trabalho, também há os que preferem clicar máquinas que viajam pelo ar a centenas de quilômetros por hora. Os spotters – nome dado aos apaixonados por fotografia de aviação - são um bom exemplo disso.
Para eles, os aviões são os modelos perfeitos, com sua construção imponente, dotada de linhas esguias e aerodinâmicas. O céu é o coadjuvante para compor um belo plano de fundo, emoldurando a magia do voo. E a prática ganha cada vez mais aficionados no Piauí.
Fotografar aviões não é tão simples quanto possa parecer: a atividade exige a sensibilidade da fotografia, aliada ao conhecimento técnico e até habilidades de paparazzi – afinal, uma aeronave nova no aeroporto é sempre um acontecimento que chama a atenção dos spotters, que são extremamente criativos na tarefa de conseguir um lugar, por trás de muros e cercas, para o melhor clique dos bólidos alados.
Vianey Moura é um desses piauienses apaixonados pela fotografia de aviação. Aos 43 anos, ele relembra momentos marcantes tendo como companhia a câmera fotográfica, no aeroporto Senador Petrônio Portella, em Teresina.
“Comecei há muito tempo, visitando o aeroclube do Piauí e participando dos eventos de lá. Já fotografei aeronaves importantes e raras que estiveram por aqui”, lembrou Vianey.
Ele, que também é radioamador, utiliza a escuta aérea como apoio para as fotografias, antecipando-se à chegada das aeronaves.
Moura e outros aficionados pela fotografia e observação de aviões chegaram a alugar uma casa no Bairro Aeroporto, nas proximidades da pista de pouso, de onde se tinha uma visão privilegiada da movimentação. Era a sede do já extinto Grupo de Escuta e Observação do Tráfego Aéreo Piauiense (Geotapi).
Os spotters são presença constante nos aeroportos ao redor do mundo, tentando clicar em primeira mão as novidades do universo da aviação. Vianey é o espelho para novos praticantes da fotografia aeronáutica. Luiz Neto Melo, de apenas 14 anos, não perde a oportunidade de registrar pousos, decolagens e outras manobras, demonstrando que essa categoria de fotografia não conhece idade.
“Fotografo aviões há três anos, e é algo que gosto muito de fazer”, disse o jovem. Ou-tro exemplo muito interessante vem do interior do estado, mais precisamente da cidade de Picos: Patrick David, de 15 anos, bateu o pé diante dos pais: queria uma câmera potente, de cerca de R$ 1.500, para “capturar” os aviões. “No início, minha família foi contra, mas depois todo mundo apoiou”, disse o garoto, que já estuda por conta própria as técnicas da fotografia. O teresinense Marcus Vinícius Spíndola e o parnaibano Matheus Ribeiro também são jovens amantes da fotografia aeronáutica.
atividade encontra dificuldades com restrições nos aeroportos:
A maior dificuldade enfrentada pelos spotters do Piauí e em várias localidades do Brasil é a falta de locais apropriados para conseguir o melhor ângulo e o enquadramento perfeito. Isso porque as autoridades aeronáuticas ainda restringem, em muitos casos, a atuação desses apaixonados, que são conhecedores das minúcias e dos detalhes de cada modelo de aeronave. O arquiteto e colecionador de maquetes de aviões Marcello Dante, um dos mais experientes spotters piauienses, comentou essa situação.
“Infelizmente, muitas entidades civis e governamentais ainda não reconhecem os relevantes serviços de registro prestados pelos spotters e dificultam o seu trabalho, às vezes até de forma involuntária, com a expansão do conceito de aeroshopping, onde os locais de observação de aeronaves deram lugar a galerias de lojas. Hoje, os aeroportos estão muito mais fechados e os mirantes estão cada vez mais raros”, disse Marcello, que possui mais de 300 maquetes de aeronaves.
Ele recordou os tempos áureos em que o pátio e a pista do aeroporto de Teresina tinham uma visualização mais privilegiada. “Antes, os aeroportos contavam com amplos pátios de observação. Hoje, os spotters e amantes comuns da aviação são forçados a acotovelarem-se junto a vi-draças espessas e muitas vezes sujas ou apertarem narizes e dedos em grades, por questões de segurança”.
O superintendente do Aeroporto de Teresina, Wilson Estrela, mostrou-se receptivo quanto a abrir mais espaço para os spotters. “No que diz respeito à fotografia de aviões, é necessário articular autorizações de acesso e de permissão de fotografias junto às companhias aéreas ou com os donos de taxi aéreo.
Neste sentido, estamos abertos a receber os spotters para definirmos detalhes da presença deles em nosso aeroporto”, afirmou o superintendente da Infraero, em uma declaração bastante comemorada pelos aeroentusiastas.
Se o aeroporto de Teresina não é o bastante, vamos viajar! Marcello Dante chegou a ir a Salvador-BA apenas acompanhar a chegada de um voo da companhia europeia Corsair, lotado de turistas e operado pelo Boeing 747-400, o famoso “Jumbo”. Júnior Pontes, outro entusiasta da fotografia aeronáutica, também já aproveitou viagens para clicar aeroportos diferentes – inclusive em uma ida a Buenos Aires.
Os spotters são presença constante nos aeroportos ao redor do mundo, tentando clicar em primeira mão as novidades do universo da aviação
Os spotters são gratos aos donos de empresas de táxi aéreo de Teresina, que sempre permitem o acesso deles aos pátios das empresas. O hangar do Governo do Estado do Piauí também é bastante receptivo aos entusiastas.
Texto (Dowglas Lima- caderno VIDA jornal Meio Norte)
Fotos: Vianey e Dowglas Lima
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